O que mais tem preocupado os pais e responsáveis pelas crianças brasileiras são os programas de televisão, aos quais a sociedade está submetida 24 horas por dia. Num país como o Brasil, onde a carga horária escolar é mais baixa que em outras partes do mundo, a televisão ainda vigora, segundo as estatísticas, nas horas vagas das crianças e adolescentes do país inteiro.
Percebe-se claramente, nos dias de hoje, que o Brasil está lidando com uma juventude muito precoce, onde os valores éticos e morais de algumas décadas atrás já são considerados antiquados. Espantosamente, o que se pode notar é que, cada vez mais cedo, as crianças estão tendo acesso a conhecimentos e experiências que, teoricamente, deveriam ser censurados para determinada faixa etária.
Diante disso, levanta-se um questionamento sobre até que ponto os telespectadores infanto-juvenis, no Brasil, estão recebendo informações através da televisão, devidamente adequadas para tal público. Basta assistir a uma novela do horário nobre, para que se perceba o uso exacerbado de aspectos apelativos como sexo, prostituição, violência, tráfico de drogas, preconceito, entre outros. Discussões que seriam peculiares a uma programação voltada para o público adulto, num horário mais reservado.
É perfeitamente compreensível que a televisão queira e deva cumprir um papel de alicerce da realidade, mostrando aos telespectadores o que realmente vem acontecendo no mundo contemporâneo. O que é desnecessário é a forma com que esta retratação vem sido abordada pela mídia televisiva, que está abusando da vulgaridade e transformando-a em espetáculo, para prender a atenção de um público que encara a TV como forma de entretenimento, não como um veículo comunicação.
O vocabulário baixo, por exemplo, com a presença de gírias e palavrões, em vez de causar espanto no público, o deixa numa situação confortável e descontraída, induzindo a uma aceitação muito mais fácil do que as clássicas palavras empregadas na literatura, no teatro, no cinema e na música (aliás, até ela já está sofrendo um processo de decadência), ícones insubstituíveis do que se pode chamar de cultura. A prática do sexo na adolescência está quebrando todo aquele encanto, toda aquela ansiedade para a tão sonhada noite de núpcias, como se fosse perfeitamente normal ir para a cama com o namorado aos 14 anos de idade. Até mesmo os desenhos animados estão em fase de mutação. Transmitidos por programas supostamente infantis, as animações de hoje são constituídas basicamente pela violência, que acaba sendo desvirtuada nas escolas cada vez mais cedo.
Como se fosse resolver o problema da censura, a televisão brasileira tem colocado, ultimamente, classificações de idade em seus programas, mas isso não passa de uma fachada. Para uma criança que esteja sozinha em casa, é óbvio que não vai ser respeitada esta classificação, da mesma forma como acontece em sites pornográficos, que basta um clique na palavra “aceito” para o usuário declarar ter mais de 18 anos e poder acessar livremente todas as imagens e vídeos que quiser.
Por fim, é inadmissível que, diante disso tudo, a maior emissora de TV do Brasil ainda tenha a coragem de tirar o corpo fora, com uma simples propaganda, alegando que toda informação que chega às crianças é responsabilidade exclusivamente dos pais, que têm a obrigação de controlar o que seus filhos assistem. Certamente essa obrigação é uma verdade, mas da mesma forma que um cidadão é responsável por tudo aquilo que diz e faz, a TV também tem a obrigação de responder pela exibição de suas imagens.